À Benfica.

Uma das mais queridas e usadas expressões do Povo Benfiquista. À Benfica. Estas duas palavras (uma contracção de proposição e um substantivo próprio, mais picuinhisamente) carregam nelas todo um significado, toda uma identidade, de muito difícil definição. Tentaremos aqui dar essa definição.

À Benfica. Desde criança que me lembro de ouvir isto: “foi um jogo à Benfica”, “é um jogador à Benfica”, “foi um ano à Benfica” ou, o clássico e inesquecível, “quinze minutos à Benfica”. Bom, na verdade não  terei ouvido isto assim tantas vezes (sinais dos tempos), mas ouvi as vezes suficientes para matutar longamente na expressão.

À Benfica. Antes de partir para a definição do termo é importante deixar bem claro, de antemão, o que é o Benfica. É claro que não estaremos para aqui a escrever um tratado sobre isso, mas deixar-se-à apenas uma definição simples: O Benfica, o Sport Lisboa e Benfica, é o clube que, desde a sua fundação em 1904, luta contra todas as adversidades e que as supera. Que faz da entreajuda e da solidariedade, da força do colectivo, as suas armas. No plano meramente futebolístico, o Benfica são aqueles gajos que ganham sem que ninguém dê nada por eles, partindo atrás dos directos adversários, com tudo contra eles. O Benfica foi o Clube que resistiu a uma razia de atletas feita deliberadamente pelo rival de Lisboa em 1908 e que quase ditava o fim do futebol no Clube. O Benfica foi a equipa que conquistou a Taça Latina com um golo ao fim de 146 (!) minutos de finalíssima (!!) em 1950. O Benfica foi a equipa que ganhou as Taças dos Campeões Europeus ao Barcelona e ao Real Madrid sendo, de longe, inferior a ambos. O Benfica foi a equipa que ganhou 3-6 em Alvalade naquela noite de Maio de 1994, no contexto que se sabe (e quem não souber vá estando atento que um dia cá se falará sobre isso). Isto para nomear os momentos que, pessoalmente, mais aprecio. Postas as coisas desta forma, o Benfica, o Sport Lisboa e Benfica, é o Clube da cultura da superação, e é dessa cultura que advém a sua famosa mística. Ganhar à Benfica é isto.

À Benfica. Na verdade, a aplicação do termo tem duas vertentes distintas: a desportiva e a sócio-cultural. Comecemos pela desportiva. Já vimos, em cima, que a superação das adversidades faz parte da genética do Benfica e do Benfiquismo. Mas as coisas não são assim tão lineares. Ganhar por 1-0, com um golo de penalty nos descontos, ao Cascalheira ou ganhar da mesma forma ao Real Madrid não é a mesma coisa. Porque a dimensão do Benfica é uma dimensão…à Benfica. E, partindo dessa dimensão, ao Cascalheira o Benfica tem de ganhar por 7,8,9,10,11 a zero. Isso é à Benfica. Não se trata de humilhar, neste Clube não há lugar para sadismos. Trata-se de vincar a diferença de dimensões. Ao Real Madrid tem apenas de ganhar. Porque, reconheçamo-lo, o Real Madrid foi sempre mais forte – futebolisticamente – do que nós. E mesmo que um dia, oxalá, deixe de o ser, essa carga histórica estará sempre presente. Por isso, ganhar ao Real Madrid, seja em que circunstâncias fôr, é sempre à Benfica. Porque ganharemos quando temos tudo contra nós. Quando só o Povo Benfiquista, este bando de milhões de loucos, acredita.

Depois há o caso, especial, dos jogos com os rivais. No caso do nosso rival de Lisboa, uma vitória à Benfica é qualquer uma delas. Porque o Benfica, o Sport Lisboa e Benfica, até determinado ponto foi construído à sombra desta rivalidade (e não há vergonha nenhuma nisto). Por isso, temos de lhes ganhar, nem que seja nos jogos do nosso bairro ou nos matraquilhos da tasca. Contudo, contudo, nos anos mais recentes temos assistido a alguma falta de à Benfica nas nossas usuais vitórias perante a equipa do Lidl de Telheiras. E passo a explicar: disse acima que no Benfica não há, nem pode haver, lugar para sadismos. É bem verdade, deixamos isso para outro tipo de gente. Mas há, deve haver e tem que haver lugar para vinganças. E qualquer, repito, qualquer jogo com o clube do avôzinho é uma oportunidade de vingança. De vingança por tudo e mais alguma coisa. Não vale a pena estar, agora, a nomear tudo aqui, mas quem convive com adeptos do clube do centro hípico sabe bem do que falamos.

Depois vêm os jogos com os outros rivais. E com esses, uma vitória à Benfica é uma vitória num jogo em que somos roubados, espoliados indecentemente. Porque ganhar-lhes de qualquer outra forma é a coisa mais banal na nossa História.

À Benfica. O jogador à Benfica. O que é um jogador à Benfica? É o gajo que, em campo, personifica a raça, a força e o querer. É o gajo que nos – Povo Benfiquista – representa em campo. É o gajo que tem uma classe do caraças, ao mesmo tempo que é o gajo que tem toda a falta dela. É um homem simples, trabalhador, do Povo. Um homem como os milhões de Benfiquistas. É, por fim, o gajo que “deixa tudo em campo”. Até o sangue. Não precisa de marcar muitos golos ou fazer muitas fintas. Pelo contrário, muitas vezes vejo esses fantasistas como pouco condizentes com o espírito do Sport Lisboa e Benfica. Mas é o gajo que quando o vemos lá em baixo no relvado, com a camisola vermelha, temos nele toda a confiança. Sabemos que nunca jogará mal e que não será por ele que deixaremos de ganhar.

À Benfica. Um dia, uma vida à Benfica. Um Povo à Benfica. À Benfica é a comunhão, o convívio, a alegria e a fraternidade. É fazer centenas e centenas de kilómetros e chegar a um sítio, seja ele onde fôr, e ser recebido pelos Benfiquistas locais porque somos todos um só. É passar um dia inteiro no Alto dos Moinhos, na D. Leonor, no Reds, numa Casa do Benfica, numa taberna, num bar, numa casa particular a beber,a comer e a sentir o Sport Lisboa e Benfica. É andar às voltas numa auto-estrada para levar combustível a um Benfiquista desconhecido que tinha ficado com o carro parado no regresso de um jogo. É servir de ombro consolador a um Benfiquista desconhecido que chora uma derrota dolorosa. Porque isso é o Benfiquismo, a celebração colectiva de um propósito. É encher ruas e praças por esse Mundo fora em celebração. É festejar um campeonato ou qualquer outra conquista cantando, berrando, urrando pelo Sport Lisboa e Benfica sem querer saber de mais ninguém. É acreditar loucamente, cegamente, que daremos a volta às situações mais impossíveis. É assumir a nossa identidade humilde e popular e ter orgulho em tudo isso.
É saber, lá no fundo, por mais pessimistas que estejamos, que o nosso destino é o de vencer. À Benfica.

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Sobre I

No Benfica, no party.
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