Copa.

Copa-3

Confesso que quando se soube, há uns 7 anos, que o Brasil iria organizar um Campeonato Mundial da FIFA sorri ironicamente. Num país com tamanha amplitude socio-económica, com um potencial tremendo (como poucos no Mundo) para convulsões em larga escala, um Campeonato FIFA iria ser uma oportunidade de ouro para arruaças e caldeiradas bem mais divertidas que o Carnaval do Rio. E não me enganei.

Desde sempre (ou pelo menos desde há algumas décadas) que nos é vendida a imagem de um povo Brasileiro (duzentos milhões de almas) que, quando toca a futebol e ao escrete, se aliena dos profundos problemas que a disparidade social daquele país faz, inevitavelmente , despontar. Ou que esquece as opressões e repressões de governos sucessivos (nomeadamente nas décadas de 60 e 70). Pois bem, se assim foi, assim deixou de ser. A mobilização popular contra a organização da Copa tem sido irresistível e já nem o esforço conjunto de propaganda governo plus FIFA (como aquele circo patético numa favela do Rio de Janeiro, com um bando de brancos ricos a ensinar crianças a pintar a bandeira nacional, mas rodeados de Polícia Militar), mais o boicote mediático a acções de protesto anti-Torneio a apagam. É óbvio que, se entrarmos para uma análise sociológica mais aprofundada, vamos encontrar também muitos brancos ricos entre os impulsionadores dos protestos. Certo. Mas é também óbvio que as grandes organizações de representação popular, grande parte dos sindicatos e até grande parte da população das favelas estão contra o Mundial e fazem ouvir a sua voz. Seja de que forma for.

Para além do desvio de recursos (a questão central para o povo Brasileiro), há uma questão que, para o autor destas linhas, é central. A FIFA não serve o futebol, pelo menos o futebol como ele deve ser. Para lá da opinião que se possa ter sobre as selecções nacionais e os seus propósitos (voltaremos a este tema), a FIFA não só rebentou com o futebol popular, o futebol que fez gerações de adeptos apaixonarem-se pelo desporto-rei, como é uma organização que parasita os países que organizam os seus eventos. O Brasil não é excepção, Portugal também não o foi. Através de mecanismos de corrupção activa (bem documentados, por sinal) aquela gente põe e dispõe dos governantes locais e usando de propaganda massiva, anuncia aos quatro ventos os benefícios dos seus eventos para o futuro das nações.

Os protestos do povo Brasileiro serão, espera-se, elucidativos. O torneio será marcado por uma mobilização policial-militar nunca vista para a repressão do povo. Teremos greves sucessivas (a do Metro de São Paulo foi marcada por tempo indeterminado) e, concerteza, confrontos generalizados nas cidades onde haverá jogos. As implicações futuras não caberão neste texto, nem fazem parte do âmbito do blog. Mas se os protestantes conseguirem, por exemplo, levar ao cancelamento de um só jogo, será uma vitória épica. Para já, a presidente Dilma Rousseff já cancelou a sua presença na cerimónia de abertura. Vai ter Copa, sim. Uma Copa histórica em termos de mobilização popular. E, esperemos, uma Copa que possa começar a mudar o paradigma do futebol moderno. Assim o queira o povo Brasileiro.

Bom Campeonato Mundial FIFA e que ganhe o Povo.

 

 

 

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Sobre I

No Benfica, no party.
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