Ao Povo do Clube do Povo

Quando, em 10 de Fevereiro de 1907, o então denominado Sport Lisboa venceu os ingleses do Carcavellos Club – invictos havia mais de nove anos – por 1-2, o povo Lisboeta, em festa por tão grande feito, decide atribuir ao Clube das camisolas vermelhas a alcunha de “Glorioso”. Esse povo, como todos os povos, era sabido e intuitivo. Pressentiu, então, que estava perante o aparecimento de um fenómeno cujas repercussões ecoariam no tempo e no espaço, muito para lá das ruas de Belém e muito para além do seu tempo de vida. Esse povo sentiu que Cosme Damião, os irmãos Rosa Rodrigues ou Januário Barreto eram gente da sua, merecedora de toda a confiança. E o povo Lisboeta, como todos os povos, rapidamente deu o seu incondicional apoio e dedicação a algo que o representava e lhe dava voz. E, mais ainda, lhe dava esperança. Porque aquilo em que se tornaria o Benfica, o Sport Lisboa e Benfica, seria mais, muito mais, do que um clube desportivo. Porque o Benfica, o Sport Lisboa e Benfica, seria a expressão terrena do espírito e da vontade de superação das dificuldades e amarguras da vida que os povos levam no peito. No fundo, o povo Lisboeta assumiu, nessa tarde, que aquelas camisolas vermelhas eram a sua utopia colectiva. O seu amanhã que cantava.

A gloriosa saga da construção desse sonho que é o Sport Lisboa e Benfica conheceria uma nova etapa na década de 1930, com a verdadeira implantação nacional do prestígio popular do Sport Lisboa e Benfica. Montadas em bicicletas, as camisolas vermelhas transportavam a raça, a força e o querer pelas estradas e ruas deste país, mostrando ao povo Português o porquê de tamanho orgulho dos Lisboetas no Sport Lisboa e Benfica. E o povo Português abraçou o sonho, a utopia Benfiquista. Porque o povo Português, como todos os povos, pressentiu. E nesses longínquos e difíceis anos 30, aquela camisola vermelha de José Maria Nicolau, um verdadeiro herói popular, em cima da “máquina”, voando pelas estradas fora, significava uma esperança, quase uma garantia, de que tinha que haver, ia haver, mais vida e mais futuro para além do que os seus olhos viam nos campos do Alentejo, nas serranias da Beira ou nas marés da Costa de Prata. É aqui, nestes anos, que uma nova entidade, uma nova massa, se levanta no território nacional. Para lá do povo Português, passa a existir também o Povo Benfiquista. A lenda estava criada, em definitivo e de forma irresistível.

Duas décadas mais tarde a paixão e o fervor do povo pelo Clube do Povo materializam-se, por fim. A entrega e a devoção sincera do Povo Benfiquista foram o que tornaria possível a construção do Estádio da Luz, local mágico, santuário pagão alvo de regulares peregrinações durante os 5 decénios seguintes. Era a transformação do sonho, da utopia, em matéria palpável. E o Benfica, o Sport Lisboa e Benfica, através dos seus dirigentes, fez a mais merecida das homenagens ao Povo Benfiquista, levando os operários e restantes trabalhadores responsáveis por aquela magnífica obra a pisar o relvado antes de mais alguém. Porque o Benfica não é. O Benfica somos. E somos nós, o Povo Benfiquista. Naquela tarde de 1 de Dezembro de 1954, os corações vermelhos sobrepuseram-se às camisolas vermelhas e foram os verdadeiros heróis. Heróis populares por breves momentos. Heróis do Benfica para a eternidade.

Mas seria, por fim, 10 anos mais tarde, que a construção desse sonho que é o Sport Lisboa e Benfica atingiria a sua plenitude. Pelos pés de Eusébio, Águas, Coluna, Cavém, Simões e outros mais, o Benfica, o Sport Lisboa e Benfica, internacionalizava-se. Mais do que isso, transcendia-se. O Povo Benfiquista ouvia nas camisolas vermelhas a voz que não o deixavam ter. O Benfica, o Sport Lisboa e Benfica, significava, no Mundo, a revolta muda do povo Português e dos povos colonizados. Significava as pausas nos combates da Guerra Colonial, quando soldados de ambos os lados se uniam, por 90 minutos, pelo mesmo propósito. Significava a sede de vitória sobre os mais fortes que o povo Português, como todos os Povos, sentem. As gloriosas campanhas de 1961 e 1962, com vitórias finais sobre as melhores equipas Europeias de então, foram a máxima expressão desse espírito de combate que o Sport Lisboa e Benfica representa. O espírito de combate e de revolta que todos os Povos têm. A diáspora Portuguesa (já naturalmente Benfiquista) dessa década de 1960 faria o resto, levando o nome do Sport Lisboa e Benfica a todo o Mundo. Fazendo deste Clube já não apenas um Clube do Povo, mas um Clube para os Povos.

Aqui chegados, em pleno século XXI, o Benfica, o Sport Lisboa e Benfica, nunca perdeu o seu carácter popular, apesar de todas as voltas e revoltas do seu passado recente. Chegou até a aprofundá-lo. Por vezes, admitamos, de forma difusa e confusa. As camisolas vermelhas continuam a representar a identidade e a força muda de um povo. Porque este é o Clube que nunca encontrou rival. O Clube que honra os ases que lhe honraram o passado. O Clube do fervor, do sentimento mais profundo vindo das entranhas da Terra. O Clube da raça, da força e do querer. O Clube da sinceridade e da humildade. O clube da democracia e do debate de ideias. O Clube do trabalho. O Clube lutador. O Clube do Povo.

Viva o Benfica!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s